
Asfora, a vizinha e o yorkshire
Cap. 01 – Inferno astral
Asfora nunca entendeu o fascínio das pessoas por animais. Dizia que cachorro é humano demais em corpo de bicho: late, baba e ainda exige colo. Gato, então, é o pior tipo de inquilino. Entra sem pedir, dorme onde quer e encara o dono como se o intruso fosse ele.
Agora, aos cinquenta e poucos anos, Asfora vivia sozinho. O que, para ele, não era solidão, mas lucidez. Achava que o silêncio era o último bastião da civilização; o barulho alheio, um sintoma de histeria coletiva.
Mas o tédio, seu velho cúmplice de noites longas, às vezes resolvia pregar peças. Numa delas, abafada e sem graça, daquelas em que o noticiário parece o obituário do mundo, ele deixou a porta entreaberta. Talvez esperando uma visita improvável: Madalena, do 1.304: a vizinha de risadas longas, vestidos curtos e intenções malvadas.
O destino, como sempre, errou o endereço. Quem entrou não foi Madalena, mas um poodle ofegante, fabricado em puro nervosismo. O bicho invadiu a cozinha, farejou as empadinhas de camarão e se autoproclamou imperador do jantar.
Asfora reagiu como quem espanta mosquito: rápido, impensado, cruel. O cabo do esfregão quebrou, o cachorro uivou, e o barulho ecoou como sirene moral. Em minutos, a vizinhança já o via como o vilão do condomínio. Ganhou processo, má fama e um título que o deixava furioso: o carrasco dos cães.
Desde então, vivia sob a vigilância do tribunal dos vizinhos, onde as sentenças eram proferidas no elevador e cumpridas nos cochichos de corredor.
Na manhã do seu aniversário, acordou com a campainha martelando a alma. Abriu a porta, ainda em transe, e deu de cara com Madalena, sorrindo como quem entrega más notícias embrulhadas em perfume e malícia.
— Socorro! Pega, pega, pega!
Antes que entendesse a situação, um vulto minúsculo atravessou-lhe as pernas e mergulhou na sala: um yorkshire em surto, uma miniatura do caos. Em segundos, devastou o tapete, o jornal, a paz e a reputação do dono da casa.
O cãozinho ainda derrubou o porta-retrato da mãe de Asfora, que o observou da moldura com o olhar eterno de “eu te avisei”.
— Vai mijar no tapete! — gritou Madalena, histérica.
E ele pensou que talvez o tapete merecesse.
Os vizinhos brotaram à porta, em êxtase, como plateia de tragédia doméstica.
— Dá uma vassourada!
— Chama os bombeiros!
— Eu não disse? — rosnou a dona do poodle, saboreando a vingança. — Nem os cães o suportam!
Por um instante, Asfora pensou em pular da janela e encerrar a trilogia dos desastres caninos. Mas o yorkshire – aquela bola de energia demoníaca – se enroscou em seu peito e, pela primeira vez, ficou quieto. O silêncio que se seguiu foi tão improvável que parecia um milagre.
Madalena, com a serenidade de quem dita sentença, decretou:
— Pois agora o senhor vai cuidar dele pra mim. Quero ver se é homem de verdade.
Asfora ficou parado, o cachorro tremendo em seus braços, e teve, naquele exato momento, a nítida sensação de que o destino acabava de lhe entregar um bicho para chamar de seu.
Naquele aniversário, não teve bolo, nem parabéns. Apenas um amiguinho histérico, um coração cansado e a incômoda suspeita de que, talvez, fosse ele o animal que precisava ser domesticado.